domingo, 27 de outubro de 2013

Acontecimento de estado

À chegada à Praça Imperial, a antevisão de que algo grandioso estaria para acontecer. 
Um palco imenso invadia a praça repleta de luzes. Sobre o mesmo, uma chuva mágica de piruetas e acrobacias no gelo vindas dos quatro pontos cardeais. O ensaio geral antecipava o acontecimento dessa noite... fazendo sonhar pequenos e graúdos.
Uma corrente conjunta de todo o tipo de forças militares [entenda-se centenas de elementos políciais, exército, forças especiais, kung fus e afins] estendia-se num cordão policial de vários quilómetros que rodeava o evento e delimitava toda a rua principal. As ruas haviam sido cortadas momentaneamente ao trânsito e pessoas acumulavam-se na esperança de assistir à sua passagem e, de telemóveis em punho, poder, até, registar o momento.
Perante toda a polpa e circunstância foi inevitável não imaginar o que estaria para acontecer. 
'Poucos acontecimentos mobilizam tantas forças policiais' - pensei - 'Só uma pessoa exige tamanha importância numa nação' - presumi. E, no mesmo instante, escuto as sirenes dos carros patrulha romperem a rua e levaram as pessoas ao histerismo. A corrente policial alinhou-se numa recta praticamente perfeita de forma a impedir a passagem dos curiosos.
Ao fundo antevi de imediato a entrada do carro presidencial. Confesso que eu própria me senti entusiasmar perante a hipótese de fotografar Vladimir Punti.
Ao invés, pouco depois dos carros policiais, vejo surgir o camião da Coca-Cola [patrocinador oficial] seguido dos atletas olímpicos da selecção russa. Na frente de combate, uma qualquer atleta russa envergava a chama olímpica.

Não valesse Peter por si mesma... fomos, ainda, convidados a assistir à chegada da chama olímpica à cidade. A festa perdurou...




Peter!


Chegámos a St. Petersburgo de madrugada, sob uma chuva miudinha. A estação de comboios ficava a 2,8km do hostel pelo que resolvemos ir a pé. E enquanto caminhávamos, assistíamos ao lento acordar da cidade. Não importa o país, o continente, a religião ou o costume local... ao Domingo, o dia tarda sempre a nascer. 
Encontrámos, facilmente, o hostel. À entrada, os sobreviventes de um típico sábado à noite resistiam ao cansaço que, notoriamente, recaía sobre eles. Realizámos o check in, pousámos as malas e partimos à descoberta da cidade que nos acolheria nos próximos 3 dias.
Saint Petersburgo é um dos maiores centros culturais da europa, com mais de um milhão de habitantes. O centro da cidade, tal como parte dos seus monumentos, são considerados património mundial pela UNESCO.
Resumir Peter (como carinhosamente é chamada por aqui) é, de todo, impossível. A sua beleza trespassa os edifícios, os monumentos ou a tranquilidade do seu rio Neva. Reside no seu glamour, na sua melancolia ou na arte constante que bate na nossa janela. 

Entre o Museu Nacional de Hermitage [um dos maiores do mundo, possuindo mais de 3 milhões de obras de arte], a Catedral do Sangue Derramado, o Forte de Pedro e Paulo, a Praça Imperial ou a Ponte do Palácio... Peter seduz até quem não quer ser seduzido...


Trotsky most - Peter & Paul Fortress
Peter & Paul Fortress
Mercado local
Catedral de Kazansky Sobor
Jardins de Mikhailovsky
Hermitage
Igreja do Salvador do Sangue Derramado
Teatro Alexandrinsky

Viagens cruzadas

Há muito que os comboios me fascinam...
Lembro-me das viagens infindáveis com a minha avó Alice e os meus primos rumo à Beira Alta. Partíamos de Santa Apolónia carregados de malas. Perdia-me na descoberta pelas locomotivas, nas despedidas de quem vai com quem fica, nos vilarejos sucessivos que me entravam pela janela. Perdia-me no imaginário criado em redor daqueles viajantes: quem seriam!? para onde viajariam? e, sobretudo, o que tanto pensariam? Criava-lhes profissões, destinos, histórias de vida... verdadeiros enredos de sonhos e contratempos.
Pausa para o lanche, pausa para o almoço e daquela modesta marmita da avó Alice saiam os manjares mais suculentos.
- Raquel! Ricardo! - gritava a avó Alice quando no esplendor da nossa imaginação tentávamos conhecer as carruagens vizinhas. - Venham para aqui. Não vos quero aí - ordenava numa vigia constante.
E pudesse o tempo parar um instante...
Regresso à viagem Moscovo - St. Petersburgo. Sorrio... as semelhanças são bem mais que as disparidades. E repetem-se os jogos de imaginação sobre os meus companheiros de compartimento. Todos russos - à excepção do Marco, claro está. Pela janela repete-se, também, o desfilar de casas, florestas e estações de outros tempos. Assombrada pelo mesmo entusiasmo de outrora, vejo, tão somente, aquela deliciosa merenda, ser substituída por umas massas instantâneas que me castigam de forma audaz. 
- Que a avó Alice nem sonhe que troquei a sua merenda suculenta por este insucesso da era moderna! - penso!
650km separam as duas cidades. Pelo rasgar da noite, a viagem sucede-se por entre os curtos períodos de sono que o assento nos permite cumprir. 
As conversas astropelam-se num russo rápido que, ainda que lento, me seria impossível compreender. Da lista dos não convocados, surgem os nossos nomes, juntamente com o do jovem à minha direita. Surdo-mudo, a incapacidade remete-o, juntamente connosco, para a lista dos menos aptos.
Mas descreve-o Darwin da forma mais científica e comprovada possível: A inadaptação de um ser vivo em determinado ambiente concede-lhe a adaptação major num outro habitat. E a conversa fluiu entre os três, num silêncio profundo onde ecoam os gestos incessantes e as gargalhadas inerentes à sua compreensão.

06h45 Chegamos a St. Petersburgo...




sábado, 26 de outubro de 2013

Tristezas não pagam dívidas

Observamos a plataforma, repetidamente, como se petrificados... O jovem segurança tenta consolar-nos sobre uma qualquer reza russa que, irremediavelmente, nem escuto. 
Revejo todo o meu dia na esperança de compreender onde perdi estes 2min. E, afinal, a vida é isso mesmo: feita de timings que se descruzam por segundos, minutos, horas ou dias suficientes para que não se conte uma história... nascem assim os desencontros, os desamores e as despedidas. Nascem, assim, os nossos fados.
Abandonámos a plataforma vazia sem que nos fosse, ainda, possível, traçar novos planos.
Atravessamos, uma vez mais, a sala de espera e vejo a desilusão surgir por entre os nossos ferverosos adeptos. O segurança responsável pelo RaioX levanta-se, surpreendido, também, pela nossa presença. Por entre gestos, pergunta-nos se o comboio já havia partido. Aceno-lhe, desiludida, que sim... 
"E agora?" - consigo escutá-lo no bracejar constante. E agora...? Agora é tempo de traçar planos secundários. E quantas vezes não se sobrepõem estes às cenas principais...?!
- Vamos à bilheteira, Marco! - digo, decidida. - Digo-lhe que perdemos o comboio, quem sabe se não nos devolve o dinheiro ou assim? Já dizia a minha avó Alice que burro cansado e pessimista não puxa carroça.
Entramos na bilheteira de longo curso e guichet após guichet busco um rosto supostamente simpático e bilingue. Missão de todo impossível.
Faço figas e escolho um de forma meramente aleatória.
- Do you speak english? - arrisco.
- Nyet - escuto-a apressadamente, vendo-a desistir à priori de qualquer conversação.
- And your partners? - insisto.
- Nyet, nyet - expulsa-me de imediato.
- Wait - insisto, já cansada, confesso! - I need help! - E mostro-lhe os bilhetes intactos, orfãos de um comboio sem tempo para esperar. Comboio esse reflexo de uma sociedade que, tantas vezes, não espera, também, dois meros minutos...
Vejo-a obedecer-me incomodada com a minha necessidade. Lê o meu bilhete e inicia todo um processo informático que, irremediavelmente, não entendo.
- Card! - ordena sob a simpatia russa que todos conhecemos, enquanto me apresenta um novo bilhete.
- O teu cartão - ordena-me o Marco perante a minha inércia.
- O meu cartão? Mas como o meu cartão? - respondo em bom português, dialecto irritado - Não decidi preços, horários, não decidi nada.
Respiro fundo.
- Wait - repito, em modo cansaço ao quadrado. E inicío toda uma explicação sob um jogo de mímica apreendido nas muitas horas investidas no Trivial Pursuit. [Desta vez, com sons à mistura... sem que o mau perder dos rapazes nos anulassem jogada sobre jogada. Bons tempos!] Recrio assim todo o episódio do comboio a partir, de nós a ficarmos e da tristeza estampada naqueles pobres bilhetes.
Ela acena afirmativamente em sinal de compreensão. E inicia toda uma uma explicação... Em russo! 
- I don't understand - digo-lhe, enquanto lhe agarro a mão, numa tentativa desesperada de a chamar à razão. E eis que sobre o discurso russo vejo surgir no canto inferior a linguagem gestual... Repetem-se os gestos e entendo, finalmente, que os recentes bilhetes não são mais mais que um recibo de devolução, que o cartão visa a recepção de 1/3 do valor perdido nos bilhetes abandonados e que temos um novo comboio dentro de 30min, numa carruagem idêntica à anterior, pelo mesmo preço. Contas feitas... 50€ de prejuízo total. Parece-me justo... Sorrio, finalmente. Por entender o russo, finalmente, ainda que sob a sua vertente mímica. E por encontrar um destino pouco depois de perder o meu...
Devolução do numerário, novo pagamento e nova emissão de bilhetes.
Vejo-a escrever num papel perdido o número da plataforma e repetir as horas de partida.
- Vão, vão rápido - escuto-a nos gestos repetidos.
Pego-lhe, uma vez mais, na mão, cruzo-lhe o olhar e na mais profunda sinceridade despeço me com um sentido Spasiba [Obrigada!].
Cá fora, levanto os novos bilhetes de forma a revelá-los aos nossos adeptos... os sorrisos sucedem-se. Vejo a esperança renascer no olhar de todos. Prometo não desiludi-los.


22h50
Parte o comboio, desta vez, connosco...

Ao ritmo de Obikwelu


Finalizado o 1° dia de visita a Moscovo, regressámos ao hostel a fim de carregar malas e rumarmos a Saint Petersburgo às 22h10. [Regressaremos mais tarde a Moscovo a fim de terminar a visita.]

No caminho, parámos numa mercearia a fim de comprarmos qualquer coisa para o jantar e acabámos por nos perder no tempo com o rapaz que nos atendeu. É incontornável... perante a resposta "Portugal", a associação com Cristiano Ronaldo é imediata e as pessoas sorriem-nos com apreço, num jogo incessante de palavras em redor desse desporto tão universal que é o futebol. "Figo", "Nuno Gomes", "Rui Costa", "Benfica", "Porto"... E inicia-se, assim, uma relação inter-cultural. Engraçada a facilidade com que nos ligamos a algo ou alguém que nos transporta para um campo conhecido ou favorável. 
De sorriso constante, revelou-nos que havia sido jogador de futebol profissional mas, devido a uma lesão no joelho, ficara afastado dos campos.
Observei as horas e vi a janela do tempo fechar-se consideravelmente. Precisávamos de ir... Despedimo-nos, com a promessa de voltar daí a uns dias, e rumámos ao hotel com o intuito de organizarmos as malas.
Viajar com quatro malas é, de facto, intransigente! Confesso que venho, com o tempo e com as viagens, apurando o meu sentido mais prático. No entanto, e perante as temperaturas praticadas que oscilam entre os 15° e os -20°C, confesso que não me foi fácil aplicar os conhecimentos desenvolvidos. Assim sendo, entre roupa, fatos da neve, sacos cama, necessaire e comida... Temos quatro malas. Prioridade imediata: pedir para deixar duas delas no hostel até ao nosso regresso e levar para St. Petersburgo o indispensável.
Pedido feito, pedido aceite :-)
Organizámos as malas, deixando as restantes no hostel e partimos em contra relógio a caminho da estação. Cerca de 30min era o que nos restava para chegar à estação, ou melhor, ao nosso comboio. Nem mais um minuto - pensei - que os relógios daqui devem ter pouco dos de Portugal...
Fomos em passo acelerado os cerca de 15min que nos separavam da estaçao de metro e descemos, já, as escadas em modo corrida. À chegada à plataforma avistamos as portas do metro encerrarem-se e percebo que teremos de esperar pelo próximo. 
O relógio marca as 21h54. Respira, Ana Raquel - tranquilizo-me - tens outro metro em menos de 3min. E pouco mais de 2min depois, avisto as luzes de uma nova toupeira. Respiro de alivio. Encontrávamo-nos agora à distância de duas estações. 5min depois, eis o destino. Rompemos as portas por entre a multidão e corremos com toda a velocidade em direcção à saída.
Cruzo as portas , olho para a esquerda e avisto as locomotivas suburbanas. Não, direita - penso - e contorno todo o edifício do metro. Do outro lado da rua, avisto a estação... corro na direcção do túnel e atravesso-lo com as poucas forças que me restam. 
Finalmente nas plataformas, busco no ecran gigante o número do nosso comboio, mas sem êxito. Perante a falta de tempo que nos resta, decido perguntar em redor pelo comboio para St. Petersburgo. Entre encolheres de ombros, o mais próximo que tive de uma conversação foi um "I don't speak english!" 
Olho em redor e percebo que estamos na estação errada. Grito para o Marco que tentava encontrar a plataforma correcta e corremos, uma vez mais, na direcção do túnel  com vista ao lado oposto onde se encontra a estação pretendida. Isto, porque, entre as três grandes estações existentes em Moscovo, encontram-se aqui, lado a lado, duas delas. Sendo que, uma das quais, se subdivide, ainda, em duas grandes sub-estações: uma suburbana e outra de longo percurso. Confusão na certa, portanto.
Atravessamos o túnel e sinto o corpo fraquejar-me... Estou exausta! Peço ao Marco para não esperar a fim de avistar o número da plataforma e exijo-me um último esforço. Entro na estação, o Marco grita-me o número da plataforma e lançamo-nos na luta pela medalha dos 100m. Avisto o controlo de malas (o controlo por RaioX é constante aqui na Rússia - entre estações de comboio, correios, museus e afins) e peço, ao segurança, por favor, para que nos deixe passar. Ele manda-me contornar o controlo e corro enquanto lhe grito um "Thanks a lot". Em redor vejo as pessoas acenarem-nos para irmos rápido, zelando para que cheguemos a tempo. 
Entramos na dita plataforma e avisto o início da linha vazia, contendo, porém, ao fundo um comboio parado. Será aquele? - interrogo-me. Questiono os seguranças dentro da cabine que me apontam para a dita linha, sem que a mesma se encontre no seu campo de visão. Chamo um deles para que me aponte com exactidão o destino final, mas o mesmo não se move. Perante a minha insistência, levanta-se, por fim, e ao meu apontar ao comboio que se avista ao fundo, abana a cabeça, surpreendido, em sinal de negação. Aponta-me para a linha vazia e leio no seu gesto seguinte um "Já partiu...". 

Sem nós, portanto... 


Ao fundo o relógio marca as 22:11:31




Perspectivas russas...

Já todos conhecemos a tradição de espionagem ligada à história da Rússia, porém, jamais pensei em experienciá-la. 
Durante a visita ao Teatro Bolchoi fui abordada por um fotógrafo russo a fim de lhe fornecer o meu email para que me pudesse enviar as fotos que me havia tirado.
- Fotos? Quais fotos?
Direcciona o visor da câmara para o meu ângulo de visão e reconheço-me de imediato no écran.
Posto isto, que dizer-lhe? Enchi-me de solidariedade fotográfica [confesso que as fotografias que me dão mais prazer tirar são, de facto, os retratos...] e lá partilhei o meu e-mail.
E a fotografia lá chegou, sob a ressalva "I hope the photos are better than my terribel english :-) "

Eis-me...sob um olhar russo!




Mockba!


Chegados ao hostel secreto jantámos qualquer coisa, procurámos os pontos chaves a visitar na cidade no dia seguinte e redefinimos paragens e trajectos para o transiberiano.
No quarto de 4 beliches, ou seja, 8 camas, apenas 3 camas estavam ocupadas, sendo que duas delas seriam as nossas. Aquando da chegada ao quarto, conhecemos de imediato o nosso companheiro de camarata que soletrou qualquer coisa em russo que assumi como um <Olá, tudo bem?>, retomando a sua navegação pelo PC. As colunas ecoavam uma qualquer festa de trance. Nas 4 ou 5 vezes que entrei no quarto, encontrei-o na mesmíssima posição. Não sei se ainda influenciada pela saga Millenium, se quê... Tracei-lhe desde logo os traços de hacker e por várias vezes tive para lhe encomendar serviços de alto gabarito. Confesso que me deixei amedrontar pelo secretismo russo...
A festa de trance, cujo único apreciador  era o próprio DJ durou boa parte da noite, abrilhantando, ou não, o itinerário traçado! Mas não há nada que uma noite de sono não resolva... 
Acordamos com chuva... E partimos à descoberta!
Mockba (Moscovo) é a capital da Rússia e uma das maiores cidades do mundo, reconhecida planetariamente pelo lendário Kremlin, pela Praça Vermelha e pela  Catedral de São Basílio. Recebeu-nos com uns simpáticos 12°C.

Muito aquém do captado pelos 5 sentidos, fica um cheirinho das memórias possíveis...

Praça Vermelha
Praça Vermelha - Gum

Catedral de São Basílio
Kremlin
Kremlin
Interior do Kremkin
  
Interior do Kremlin
Kremlin
Limusine dos noivos
Repetem-se os noivos pela cidade
Cadeados colocados pelos noivos para simbolizar a  união